quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008

Responsabilidade socioambiental de bancos está abaixo do propagandeado

do IDEC

Avaliação realizada pelo Idec demonstra que o consumidor ainda passa por problemas básicos junto aos bancos, como a não entrega de contrato e o não acompanhamento de suas reclamações.

Em sua terceira pesquisa sobre responsabilidade social de empresas - as outras duas foram sobre camisetas de algodão e margarinas e achocolatados -, o Idec avaliou o discurso dos oito maiores bancos de atuação nacional (com mais de 1 milhão de clientes, exceto os estaduais) e o resultado não surpreendeu: os melhores colocados (ABN Amro Real e Bradesco), obtiveram apenas a classificação "regular"; os piores (Santander e Unibanco), ficaram pouco acima da pior classificação, "péssimo", no limiar da nota "ruim"; já no bloco intermediário, na faixa "ruim", estão, pela ordem, Itaú, Banco do Brasil, Caixa Econômica e HSBC (veja gráfico).

Apesar de estar presente na propaganda e até em produtos do setor financeiro, a parte decisiva onde a responsabilidade social é realmente exercida, na relação com os consumidores, continua mal.

O estudo (acesse a íntegra aqui), com 69 questões, avalia também a atuação dos bancos em relação aos trabalhadores e ao meio ambiente. Juntamente com o bloco de questões Consumidores (que representou 40% da nota final), Trabalhadores e Meio Ambiente (com 30% da nota cada) compuseram as notas utilizadas na pontuação.

Se considerarmos a pontuação por cada bloco de questões (confira tabela), os resultados são os seguintes: no primeiro bloco, Trabalhadores, o mais bem avaliado foi o Itaú, enquanto o pior foi o Unibanco; já no bloco Meio Ambiente, a melhor colocação ficou com o ABN Amro, e apior, com o Santander; no bloco Consumidores, cuja avaliação também se baseou em resultados de cinco pesquisas de campo, já publicadas na Revista do Idec ao longo de 2007, o melhor colocado foi o Banco do Brasil, e os piores, Unibanco, Santander, HSBC e Itaú.

O estudo, exceto na parte referente aos Consumidores, se baseou na resposta das próprias instituições, de modo que não cabem críticas dos bancos às suas notas finais, alegando que o Idec não considerou tais políticas ou produtos e serviços.

Por ser a primeira pesquisa do Idec sobre o tema, junto ao setor financeiro, é possível prever que os critérios para as próximas avaliações serão ainda mais rígidos.

Para desenvolver o estudo, o Idec contou com a colaboração de algumas instituições parceiras, como Amigos da Terra, Confederação Nacional dos Trabalhadores do Ramo Financeiro (Contraf/CUT), DIEESE, Centro de Estudos das Relações de Trabalho e Desigualdades (CEERT), Centro de Pesquisa de Empresas Multinacionais da Holanda (SOMO), entre outras. Para a próxima avaliação, o Idec pretende desenvolver um trabalho ainda mais sistematizado com essas instituições.

domingo, 3 de fevereiro de 2008

How It All Ends - a lógica do gerenciamento de risco aplicada à ação contra o aquecimento global

Muito interessante este vídeo, voltado fundamentalmente a um público leigo e por isso muito claro em sua argumentação.

How It All Ends - Como Tudo Termina (em inglês)
http://www.youtube.com/watch?v=mF_anaVcCXg

O ponto principal é que a ação contra o aquecimento global não deve ser motivada por certezas científicas, praticamente inatingíveis, mas pela lógica proposta por técnicas de gerenciamento de risco. A questão se transfere, assim sendo, do "mas teremos certeza de que é melhor agir agora?" para um muito mais plausível "não seria melhor controlar os piores cenários, dado que a incerteza é necessariamente inerente à questão, do que correr os piores riscos possíveis"?

O projeto de disfusão de idéias via you tube é interessante, especialmente porque conduzido com grande qualidade e seriedade. O How It All Ends traz também uma série de vídeos sobre sub-temas, cada qual destinado a discutir um dos pontos levantados em maior profundidade, o que o torna uma espécie de "Uma Verdade Inconveniente" dos novos meios de comunicação. Todo um debate sobre a "sociedade em rede" definida por Manuel Castells (A Sociedade em Rede) pode ser aberto em torno deste tema. E nisso o vídeo apresenta um comentário interessante, um pouco na linha proposta por Adam Schaff (A Sociedade Informática) de que de que as novas tecnologias não serão capazes de promover uma forma superior de democracia caso não haja ação política efetiva. How It All Ends convoca o público a pressionar efetivamente as instituições no sentido da ação contra o aquecimento global.

Um comentário crítico a ser feito se refere ao tom alarmista do discurso do How It All Ends, uma constante nesse tipo de iniciativa de difusão. Talvez não seja de todo positivo elevar o aquecimento global ao status de única grande questão global e, digamos, multinacional, digna de atenção política nesse começo de século. A maneira como todas as outras questões são deixadas de lado - literalmente - pressupõe a aceitação de uma série de problemas sociais, econômicos, políticos e ambientais em nome da durabilidade do capitalismo mundializado contemporâneo. "Talvez nem tenhamos que mudar nosso padrão de vida", diz o narrador, esquecendo-se de que este padrão de vida - dos países desenvolvidos, dos ricos dos países subdesenvolvidos e dos ricos dos países em desenvolvimento - é também um grande causador do próprio aquecimento global. Em suma: não é a sustentabilidade como ideal que está em discussão, apenas a consideração mais carinhosa dos piores riscos possíveis do aquecimento global conduzida com base no "mínimo denominador comum".

Mesmo assim, se levarmos em conta o nível médio de consciência do público americano ultraconsumidor a que o projeto majoritariamente se destina, vemos notável progresso com a iniciativa.