"Madre Teresa de Calcutá Usava Batom?" é o título de um interessante paper de autoria de Giovanni Barontini, personalidade singular que dentre muitas outras atividades ministrou "Estado do Mundo e Valores Humanos" no curso de especialização em Gestão da RSE e Sustentabilidade oferecido pelo IE-Unicamp. Barontini, doutor em Direito Internacional Público, é consultor em RSC/DS e oferece a clientes e alunos um modus operandi - no bom sentido, é claro - que conjuga ética e técnica na proposição de alternativas para um desenvolvimento desde já sustentável. Como o paper não está disponível na internet, cabe um breve passeio por seu conteúdo.
O ponto de partida de "Madre Teresa de Calcutá Usava Batom?" é o desconforto do autor com relação ao processo de apropriação do tema do desenvolvimento sustentável pelo mundo corporativo - em sua informada opinião uma estratégia de procrastinação da implementação dos compromissos firmados face a um cenário de estagnação ou deterioração de indicadores sociais. Para Barontini, "(...) a avalanche de ações empresariais, na suposta trilha da sustentabilidade socioambiental, não consegue afugentar a nítida percepção de certa inocuidade dos esforços empreendidos, com uma conseqüente desorientação generalizada dos operadores e um sentimento difuso de impotência e inaptidão das medidas adotadas para lograr resultados concretos e duradouros".
A não-sustentabilidade do modelo vigorante, prossegue, "parece fincar suas raízes, mais do que em considerações de caráter político, sociológico ou econômico, em uma abordagem de caráter dual que permeia as próprias estratégias e formatos mentais dos paladinos do meio ambiente e dos mentores de uma nova sociedade, orientada para a responsabilidade socioambiental e o desenvolvimento sustentável". Esta abordagem dual seria marcada, acima de outros fatores, por uma separação psicológica entre homem e meio natural, uma efetiva "dissociação entre nós (os salvadores-sujeitos) e o objeto da nossa ação de redenção (o planeta)", e seria um traço característico mesmo daqueles atores comprometidos com as diversas facetas da sustentabilidade.
A mudança rumo a um modelo relacional sujeito-sujeito, hoje propalada estrategicamente por movimentos socioambientalistas mais bem posicionados, também não constituiria uma alternativa desejável para um desenvolvimento doravante mais sustentável - seria insuficiente para refletir o ideal da transpessoalidade, a respeito do qual não me sinto habilitado a escrever, mas que nas palavras de Barontini reflete "nós e o meio ambiente como um único Sujeito; nós e o planeta como uma entidade indissolúvel", "o verdadeiro desafio de uma jornada de expansão da consciência humana". Voltando ao business, segundo essa visão mesmo o triple bottom line corroboraria para cristalizar novos formatos de fragmentação da existência, como no caso das chamadas “políticas de diversidade” e no da relação entre empresas e ONG`s. Seria uma etapa necessária, mas insuficiente.
Para Barontini, a superação desta multifacetada fragmentação é a proposta filosófica do norte-americano Ken Wilber: a filosofia integral, segundo a qual “o verdadeiro Conhecedor está em comunhão com o seu universo de conhecimento: tudo quanto observamos outra coisa não é senão nós, que o estamos observando”. Em comunhão com o meio natural, mas evitando a chamada ”falácia pré-trans” – a maneira como Wilber trabalha um certo tipo de proposta ecológica romantizada e idílica que propõe um falso retorno à natureza –, o ser humano poderia desfrutar de níveis de consciência mais elevados, capazes de orientar um modelo de sociedade mais sustentável.
Inspirado pela idealista proposição do filósofo americano, Barontini observa que a solução para, por exemplo, a crise ecológica que atormenta o planeta residiria "possivelmente, só na capacidade de a humanidade transmigrar maciçamente para um nível de consciência transpessoal, integral e não-dual, em que haja acesso à compreensão de que não há separação entre nós e o meio ambiente. (...) Talvez, em um dia não muito distante, deveremos questionar não tanto a sustentabilidade ou responsabilidade socioambiental de certas empresas, mas sua própria razão de ocupar qualquer espaço em uma sociedade de seres humanos “esclarecidos” e providos de uma consciência espiritual elevada".
A proposta operacional prática derivada da filosofia integral para atingirmos este estado é o modelo AQAL – All Quadrants, All Levels, que propõe uma divisão da realidade (apenas para fins cognitivos, posto que a realidade é una e infragmentável) em quatro quadrantes: o individual interior (influências psicológicas), o individual exterior (influências comportamentais), o coletivo interior (influências culturais) e o coletivo exterior (influências dos sistemas). Este modelo pode ser aplicado a qualquer iniciativa humana ou empresarial, em qualquer contexto, para ajudar a fazer a ponte entre o indivíduo e o coletivo no âmbito de cada ação.
Projetando o que se vem dizendo e fazendo na seara da sustentabilidade empresarial à luz do modelo AQAL, Barontini observa que estudos demonstraram que tanto a literatura “clássica” a respeito do assunto quanto os conjuntos de instituições, diretrizes e normas que se prestam à sua difusão atuam apenas no quarto quadrante – o do exterior coletivo, relativo aos sistemas. A explicação para sua relativa ineficácia, assim sendo, seria que todo este arcabouço de idéias e práticas se ocupa muito pouco ou nada dos quadrantes individuais e do quadrante coletivo interno – a psicologia, o comportamento, a cultura. E por isso corre sempre o risco de falhar, por não sensibilizar as consciências de todos no nível de profundidade adequado ao sucesso das iniciativas postas em prática.
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Após essa resenha descritiva, o que vamos tentar fazer aqui é um breve exercício livre de crítica, tentando fazer jus ao significado apropriado desta tão injustamente vilipendiada palavra.
Num "Café Filosófico" recente – aquele tipo de evento que a TV Cultura transmite em que um especialista fala à vontade sobre um tema importante qualquer – o filósofo Renato Janine Ribeiro propôs à platéia uma chave para a interpretação de discursos fundada nas duas principais tradições clássicas sobre a idéia de “verdade” e sua relação com o discurso: a tradição fundada por Platão, idealista, para a qual a verdade imutável está na essência das coisas e pode ser encontrada por meio da razão para a partir daí ser traduzida em discurso; e a da retórica conforme fundada por seu discípulo Aristóteles, para quem a verdade imutável importa menos do que uma verdade trabalhada para persuadir e convencer cada auditório de que uma dada opinião é preferível à sua rival.
Para Platão, há uma distinção importante entre o discurso argumentativo que por meio da persuasão procura manipulação os cidadãos, e o discurso argumentativo dos filósofos, que procuram atingir a verdade através do diálogo. Mas para Aristóteles, a verdade também precisa convencer, sendo este o papel da retórica – a arte de compor discursos que primam por sua organização e beleza (estética), em que a verdade, que se pressupõe já adquirida, é "apenas" o fundamento.
Resumindo em termos bastante simplificados: nessa chave interpretativa, o platonismo sugere um compromisso mais forte com a essência das coisas, ao tempo em que o aristotelismo sugere um compromisso menos rígido com a verdade essencial, em nome da efetividade do discurso.
Por quê então falar em Platão? Foi a integralidade do modelo de Wilber, baseada em toda uma profunda concepção sobre a natureza do indivíduo e da sociedade contemporânea, que sugeriram a idéia. Ele próprio não fala em verdade, "pós-tudo" que é fala em “representação da realidade”. Mas a filosofia integral de Wilber não deixa de ser uma proposição platônica, idealista, que propõe uma ontologia, fechada e completa, para descrever a realidade e orientar as ações. Nesse sentido, ela é tão platônica quanto qualquer teoria científica cuja construção é anunciada como a “descoberta do real”. A filosofia integral, da maneira como colocada e de certo modo paradoxalmente, almeja um status comparável ao da lei da gravidade – o de verdade.
E por quê falar em Aristóteles? Ora, simplesmente porque todo discurso socialmente proferido com finalidades de convencimento e difusão de idéias e concepções de mundo pode ser testado como emanado de algum modo da retórica aristotélica. Não se trata mais de “encontrar a verdade essencial”, mas de convencer as pessoas da virtude de tal ou qual idéia, do fato de que é preferível sobre outras.
Assim sendo, uma primeira questão a ser discutida sobre a filosofia integral encontra respaldo nessa distinção entre verdade platônica, fundadora da ciência, e esse tipo de retórica aristotélica, que fundou o discurso argumentativo (e, interessante acrescentar, mais tarde a publicidade).
Considerando a chave analítica exposta, em qual das duas pontas a proposta descrita em "Madre Teresa de Calcutá Usava Batom?" se encaixa? Seria a filosofia integral uma proposição ideal, completa, fechada, de algo que os critérios de verdade formados pela razão aprovaram como verdadeiro? Em conseqüência, devemos adotar a filosofia integral como uma verdade atingida por um pensador iluminado, o Einstein da consciência, um modelo de pensamento que se aproximou mais do mundo das idéias perfeitas que Platão trabalhava para atingir? Devemos considerar todas as premissas de Wilber verdadeiras e validar suas conclusões como leis gerais?
Ou, por outro lado, seria mais correto ler a filosofia integral e o modelo AQAL como argumentos logicamente coerentes, mas voltados antes de tudo ao convencimento da platéia; pensarmos que a filosofia de Wilber e seus instrumentos práticos, agora entendidos ceticamente como fruto de seu tempo e lugar mais do que como uma idéia perfeita, formam uma argumentação voltada primordialmente à sensibilização de um certo tipo de público? Seriam eles um modelo útil, um jeito interessante de ver o mundo, uma rica estratégia de argumentação, uma sacada prática fenomenal, e não mais do que isso?
A resposta é: não sei. Tem elementos dos dois, me parece. Uma análise mais aprofundada se faria necessária, e isso seria sem dúvida uma tarefa complicadíssima. Sozinha, a simples constatação de que o fio condutor do texto analisado é idéia de separação entre homem e natureza dá pano para a manga para uma tese de doutorado completa – não a minha, é claro.
O que sei desde já, sem nenhuma dúvida, é que o mundo contemporâneo está mesmo precisando de influências culturais mais adaptadas ao ideal da sustentabilidade. A incompatibilidade entre modelo econômico predominante (e sua cultura subjacente) e as causas de sua manutenção ao longo do tempo é inegável, e isso abre espaço tanto para modelos filosóficos fechados (o modelo integral visto como proposição ontológica, “platônica”) quanto para uma retórica mais livre e mais eficiente (o modelo integral visto como uma idéia interessante e útil). Sem dúvida, também, abre muito mais espaço para a segunda do que para os primeiros.
Podemos inclusive reforçar este argumento com os resultados do trabalho recente de Jared Diamond ("Colapso - como as sociedades escolhem o fracasso ou o sucesso"), que ao estudar colapsos de sociedades passadas levantou inequivocamente o papel da inflexibilidade cultural em certos processos de decadência civilizacional. Segundo Diamond, os casos da decadência dos nativos da Ilha de Páscoa, dos maias ou dos nórdicos groenlandeses mostraram, em seus pequenos mundos, que diante de dificuldades provocadas por múltiplos fatores, incluindo a degradação ambiental e mudanças climáticas, a incapacidade de mudar o modo fundamental das pessoas pensarem e agirem tendeu a atrapalhar suas chances de permanência ao longo do tempo. Os nórdicos groenlandeses, por exemplo, são descritos como eurocêntricos demais para se permitir a humildade de aprender com a experiente cultura inuit, o que os poderia ter salvado dos piores invernos e garantido a sobrevivência de uma colônia que acabou varrida do mapa.
Nesse sentido, seríamos nós “mercadocêntricos” demais para nos darmos conta do tamanho dos problemas que estamos criando, e absorver influências culturais mais compatíveis com as condições de nossa permanência ao longo do tempo? A mim, parece que sim.
Portanto fica um forte elogio: qualquer proposta cultural que propale os valores humanos que a filosofia integral propala é digna no mínimo de admiração. Considerando esta carência por um modo de pensar e agir mais alinhado às reais condições de permanência da civilização atualmente dominante, a filosofia integral é uma inovação bem vinda. Muito bem vinda.
Mesmo assim, esse elogio se aplica muito mais à filosofia integral como argumentação do que como modelo filosófico “verdadeiro”. Para nós parece que, considerando todas as experiências humanas passadas no campo da “apreensão do real naquilo que se refere às questões humanas” – o que inclui a filosofia e grande parte das ciências humanas contemporâneas –, é muito razoável propor que a proposta de “integrar a filosofia” talvez seja ambiciosa demais para passar incólume de críticas.
O problema destas propostas ambiciosas é que, derrubando-se qualquer de seus pressupostos, praticamente se derruba o sistema inteiro. Bastaria duvidar, por exemplo, da relação entre razão e espiritualidade conforme proposta por Wilber, ou achar estranho que ele próprio se valha da razão para expor suas idéias menos racionalistas, para colocar em xeque os principais corolários de seu pensamento – inclusive o próprio modelo AQAL. Além disso, poderíamos argumentar que o modelo integral foi construído por intermédio de um artifício discutível de cristalização de realidades sociais dinâmicas, o que provocaria resultados “hermetizados” do dinamismo da história. Seria possível, e muitos já o fizeram.
Mas interessante mesmo é percebermos que aceitar as críticas feitas a Wilber não implica automaticamente na negação da utilidade do modelo AQAL. Implica, antes disso, que sua aceitação ocorre em termos práticos, porque ele oferece um artifício útil para finalidades específicas mais do que porque traz em si a essência do criador e toda a sua obra materializada em ferramenta. Em termos mais afins à linguagem de negócios, usaríamos o modelo AQAL por ser custo-eficiente ao menos como ferramenta de diagnóstico, por ser facilmente compreensível, por permitir a identificação de riscos e desafios que passam despercebidos nos modelos tradicionais, e por abrir algum horizonte para a “humanização do mundo dos negócios”. Seríamos utilitaristas, como o mundo capitalista o é.
Essa perspectiva, ao menos nesse estágio da minha vida, me parece muito mais razoável. Quando projetamos algumas idéias de Wilber e seus seguidores na realidade concreta do Brasil e do mundo de hoje em dia, cabe apontar a possibilidade de insuficiências marcantes aparecerem. Talvez discordássemos de que a não-sustentabilidade do modelo vigorante "parece fincar suas raízes, mais do que em considerações de caráter político, sociológico ou econômico, em uma abordagem de caráter dual”. Ou fizéssemos como muitos pensadores: concordaríamos com o caráter dual, mas o trataríamos como questão sociológica, política, econômica, cultural... Como questão “terrestre”.
Ao fazer isso, é provável que a filosofia integral acabe vista como um discurso voltado a um grupo determinado de pessoas dentro de um certo contexto. “Simplicidade voluntária”, por exemplo, é um problema daqueles que já gozam do bem-estar localizado do capitalismo contemporâneo; diga isso a um trabalhador mal-pago de terceiro mundo, desamparado pelo Estado e cujo emprego está sempre em risco, e ele provavelmente responderá que sua simplicidade é imposta e que falar em simplicidade voluntária não faz nenhum sentido. Para um executivo ambicioso e fadigado, cujo enriquecimento está diretamente ligado aos problemas que vivemos hoje em dia, entretanto, a simplicidade voluntária serve feito uma luva...
O que dizer da análise segundo a qual a responsabilidade social não está funcionando porque ainda pensamos dualmente, seja “sujeito-natureza”, seja “sujeito-sujeito”? Muitos pensam que a responsabilidade social das empresas tende a funcionar pouco porque esse modelo segundo o qual o setor privado, mais poderoso do que nunca, assume as rédeas do desenvolvimento nunca funcionou bem, sozinho, em lugar nenhum, e que, apesar dos pesares, o Estado-nação moderno ainda continua a ser a menos pior instituição já desenvolvida para lidar com os problemas de todos (esse ponto abre questionamentos com que não queremos lidar agora). Variando em matiz nessa análise, muitos pesquisadores localizariam esse problema na crise do Estado-nação, nos efeitos da globalização recente, no triunfo do neo-liberalismo nos países ditos “em desenvolvimento”, na ultra-fragmentação da educação superior, nas fragilidades e dependência do terceiro setor, na crise de segurança urbana, em um legado de má-governança pública... Explicações “mundanas” para problemas “mundanos”, explicações de poder para questões de poder, explicações materiais para problemas materiais. Ou mesmo psicológicas, mas down to Earth.
Não é a minha opinião pessoal, necessariamente, mas um jeito diferente – e válido – de proceder um questionamento semelhante. História versus idealismo: quem se sai melhor para explicar o mundo? Fica a questão.
Um último insight, irresponsavelmente largado no final para provocar a reflexão, consiste em um questionamento inescapável: o motivo pelo qual talvez seja mais correto assumirmos essa versão menos hermetizada da filosofia integral não seria o fato de ela e os valores fundamentais do capitalismo parecerem antinômicos e incompatíveis?
A mesma questão, colocada de outra forma: um mundo organizado de acordo com a filosofia integral não seria muito mais parecido com um mundo socialista iluminado do que com uma sociedade baseada na propriedade privada, na proteção do direito de apropriação de lucros e em relações de poder entre indivíduos e entre grupos sociais garantidas pelo uso da força?
Novamente: não sei. Mas vale pensar a respeito.
segunda-feira, 31 de março de 2008
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